• Raiane Cardoso

Conheça o Movimento Surfistas Negras

Pare e pense: quantas surfistas negras estão na elite do surf mundial? Quantas surfistas negras estão na elite do surf nacional? Quantas surfistas negras estão nos programas de televisão sobre surf? Quantas surfistas negras você conhece?


As respostas para essas perguntas denunciam a falta de visibilidade e apoio que meninas e mulheres negras sofrem em nossa sociedade, incluindo no mundo do surf. Hoje o ManaSurf vai te contar a história do Movimento Surfistas Negras, que foi criado com o objetivo de mudar esse cenário.



Maio de 2019 marca o grande início do Movimento Surfistas Negras. Érica Prado é o nome por trás. A jornalista carioca e ex-surfista profissional decidiu criar um movimento cujo objetivo principal é dar visibilidade para mulheres e meninas negras que surfam ao redor do Brasil, sejam elas competidoras ou não.


O perfil no Instagram é por onde Érica divulga e mostra essas surfistas para o mundo: "Por mais que a mídia não mostre, por mais que os programas dos canais especializados em surf não mostrem, essas mulheres existem e elas são incríveis".


"A minha grande motivação para criar o Movimento Surfistas Negras foi perceber que os anos se passaram e as situações se repetem", disse Érica.

A jornalista e ex-surfista profissional Érica Prado.
A jornalista e ex-surfista profissional Érica Prado. Foto: Reprodução/Instagram

A ex-surfista profissional deu o exemplo da surfista Yanca Costa (você pode ler a história dela aqui), cearense radicada no Rio de Janeiro que, mesmo tendo um desempenho excelente nas competições nacionais, enfrenta a falta de patrocínio e investimento.


"Eu percebo que a Yanca passa pelos mesmos problemas, ela enfrenta as mesmas dificuldades que eu enfrentei há 15 anos, por exemplo", comentou Érica.


Desde a criação do Movimento, a jornalista tem recebido muitos feedbacks positivos: "A maioria das mensagens que eu recebo são de pessoas agradecendo pela existência do projeto, agradecendo pelo estímulo, pela troca, pelo conhecimento de, através da página, conhecer mulheres e que às vezes são do mesmo estado ou da mesma cidade, as pessoas fazem amizade e tudo mais".


A página virou uma espécie de vitrine para mulheres e meninas negras. Marcas e empresas entram em contato com Érica através da página, buscando alguém para patrocinar ou para alguma publicidade, e a jornalista acaba fazendo uma ponte entre as marcas e as surfistas. "Eu vejo quem são as meninas que se encaixam no perfil que aquela marca está solicitando, se a marca quer uma pessoa que participe de competições ou não, e aí eu indico, passo telefone e as pessoas fecham suas parcerias, isso já aconteceu muito", contou Érica.


A surfista pernambucana Nuala Costa no Encontro Nacional de Surfistas Negras e Nordestinas.
A surfista pernambucana Nuala Costa. Foto: Bruna Veloso

Em 23 novembro de 2019 aconteceu o primeiro Encontro Nacional de Surfistas Negras e Nordestinas, que rolou no Rio de Janeiro na praia da Barra da Tijuca, zona oeste da cidade, e foi organizado pela jornalista.


"O Encontro foi incrível, emocionante demais para mim, porque eu consegui reunir várias gerações do surf brasileiro, do surf nordestino. A Nuala Costa, que é uma grande referência para mim, veio de Pernambuco para participar do Encontro, deu aula de surf para as meninas, participou da roda de conversa", comentou Érica.


Em 2020, devido à pandemia, o Encontro será virtual e já tem data marcada: 10 e 11 de dezembro. Vão ser quatro rodas de conversa com quatro participantes em cada e serão abordados temas como colorismo, racismo, a trajetória das mulheres negras nas competições, jornalismo esportivo e a representatividade no jornalismo e padrões e autocuidado. Nomes como a artista Elisa Lucinda, as jornalistas Eliana Alves, Rafaelle Seraphim e Michele Gama, a terapeuta holística Laura Pitagui, a influenciadora digital Ellen Valias e as surfistas Yanca Costa e Nuala Costa estão confirmados.


"Meu sonho atual é contribuir para um mundo mais justo, levar o surf para cada vez mais pessoas, é estimular cada vez mais mulheres, retribuir tudo o que surf me proporcionou para as pessoas, quero continuar retribuindo para que o surf seja cada vez mais um ambiente acolhedor para mulheres negras, sobretudo. [...] O surf é tão bom e tem gente que não enxerga isso, tem uma galera que não consegue entender a essência do surf, acaba transformando-o em uma outra coisa. Mas, eu acho que a gente tem que seguir o caminho do bem aí, tentar ser um bom exemplo sempre para essa nova geração que está vindo", disse Érica.