• Raiane Cardoso

Conheça a história de Júlia Santos

Campeã brasileira em 2019, Júlia Santos viu sua vida mudar através das redes sociais. Agora, aos 24 anos de idade e 13 anos de surf, a paulista visa o bicampeonato brasileiro e a entrada no Circuito Mundial de Surf. Hoje o ManaSurf conta um pouquinho sobre a história da atleta.



Júlia Nicanor dos Santos nasceu em Santos mas sempre morou no mesmo prédio em São Vicente, cidade na Baixada Santista em São Paulo. Filha de uma paranaense, foi Júlia a primeira pessoa da família a se aventurar no surf. A história com o esporte começou quando a atleta tinha 11 anos, na Praia de Itararé.


A surfista frequentava uma igreja chamada Surfistas de Cristo, onde eram ofertadas aulas de judô, karatê e surf. Júlia começou a praticar o karatê aos oito anos e também praticava outros esportes como futebol, handball e natação. Um dia, o professor de surf da igreja convidou a atleta a se juntar ao resto da turma de surf: "Cheguei na praia e eram dez pessoas e três pranchas mais ou menos. Chegou a minha vez, a gente ia revezando, a galera esperava na areia, era só ele de professor. Na hora eu entrei e já deitei sem saber remar, mas eu deitei, não tinha muita onda no dia que eu lembro. Ele estava ajudando uma menina, aí eu fui sozinha, eu vi um menino remando, ele já fazia aulas, aí eu remei e subi sozinha, fui embora e foi ali que tudo começou".


Chegando em casa, Júlia comentou com a mãe que tinha gostado muito da experiência e as duas encontraram uma escolinha de surf da prefeitura do local, onde a surfista foi se aprimorando no esporte. "Em menos de um ano eu estava evoluindo bastante e entrei para a equipe avançada. Foi uma evolução muito rápida, o professor até perguntou se eu já surfava em outro lugar, minha mãe disse: 'Não, ela nunca surfou e tal, ela fez uma aula e pediu para eu colocar ela aqui'. Ele meio que ficou desacreditado e foi quando eu comecei a competir com eles dentro da escolinha, comecei a ter uns resultadinhos, ganhava de um, ganhava de outro e com 13 anos eu ganhei meu primeiro campeonato, que foi o municipal daqui mesmo da cidade".


A adrenalina da competição fascinou. Apesar do talento e do gosto pelos campeonatos de surf, o esporte só virou profissão para Júlia quando ela fez 18 anos: "Com 15 anos eu já tinha vencido um campeonato importante, que foi o Grom Search. Qualquer outra menina na minha idade depois de ter vencido esse campeonato já teria uma posição do que queria ser, só que eu levava o surf como qualquer outro esporte, eu não imaginava que eu teria um futuro. Porque, assim, eu não tenho ninguém que surfa na minha família, eu não tive nenhuma influência, foi super do nada, sabe. Eu fui criando a paixão, não foi uma parada de repente".


"Eu nunca tive um patrocínio, eu nunca tive um investimento, nenhum suporte assim, sabe. A minha realidade era muito distante da galera de hoje em dia que tem o acompanhamento do pai e tudo mais. Então demorou para despertar isso em mim, essa vontade", disse Júlia.

"Eu jogava bola ao mesmo tempo, eu participava de um timinho que tinha aqui perto de casa, jogava bola e ia para competição de surf. Eu percebi mesmo depois que eu queria virar profissional porque já não tinha mais campeonato, eu já tinha feito 18 anos e ficou muito tempo sem campeonato profissional no Brasil, eu peguei essa pior fase. Não tinha mais Super Surf, não tinha mais um Paulista Profissional, enfim, não tinha campeonato nenhum. E eu, com 18, 19 anos, tinha cansado de ficar na mesma em campeonatos amadores. Você não ganha dinheiro, você só ganha roupa, um kitzinho, eu estava cansada disso", contou a atleta.


Em 2017 Júlia viu sua vida mudar depois de vencer um campeonato virtual organizado pela freesurfer Marina Werneck, o Seaflowers, cujo prêmio foi uma viagem para as paradísiacas Ilhas Maldivas e a surfista também conquistou a amizade com Werneck. "Eu passei a ser reconhecida, ganhei uma "pá" de seguidor. Eu vi que dá para viver do surf porque eu não participava de eventos assim. Você vê meninas novinhas hoje em dia participando de campeonato profissional, participando de QS e na minha época não tinha isso, eu não tinha investimento. Mas eu decidi que eu queria viver disso com 18 anos. Um pouco tarde", contou Júlia.


As redes sociais tiveram um grande impacto na vida da surfista: "A minha vida no surf foi transformada acho que graças às redes sociais. Eu passei a ser conhecida graças à internet. Eu tinha e tenho muito vídeo, então a galera saía compartilhando. Acredito que eu fui salva pelo Instagram, é uma parada bizarra. Se não fosse o Instagram eu não ia ser vista, sabe, então eu uso para tentar expor o meu surf", disse a atleta.


Ao longo dos 13 anos no surf, Júlia tem paredes e prateleiras com os títulos e troféus que conquistou, como o de campeã brasileira em 2019 pela Confederação Brasileira de Surf (CBSurf), acabou de ganhar pela segunda vez o campeonato virtual Bico Branco, é tricampeã santista, vicentina e do torneio Tribuna de Surfe e vice-campeã do VQS Surf Tour. Em setembro, Júlia foi uma das surfistas convidadas para participar do Onda do Bem, evento beneficiente da Liga Mundial de Surf (WSL).


O grande sonho de Júlia no surf é chegar ao Circuito Mundial de Surf e ser campeã e, para isso, a surfista mantém uma rotina intensa de treinamento. Nas horas vagas, a atleta também não abandona o surf: um de seus passatempos preferidos é usar um skate simulador de surf chamado Searchpunk. "Inclusive, eu acredito que eu evoluí bastante em manobra de borda graças a esses rolês que eu dou no simulador", comentou a surfista.


Caseira, Júlia comentou que a mãe, Iolanda, é quem costuma a tirar de casa: "Às vezes eu

dou um rolê com a minha mãe, aproveito um pouco porque é só eu e ela, eu não tenho pai. Então eu gosto de aproveitar assim, ela trabalha a semana inteira", contou. Sua mãe é uma de suas maiores fãs mas Júlia prefere que ela não a acompanhe nos eventos.

Júlia e a mãe, Iolanda. Foto: Reprodução/Instagram

"Ela não vai porque ela fica muito nervosa, emocionada, minha mãe é muito chorona. E aí eu vendo ela assim me dá uma balançada. Mas ela é super minha fã, ela curte tudo, vê tudo, acompanha tudo, está por dentro de tudo, só que fisicamente ali no momento ela não vai", disse a atleta. Dar uma vida melhor e uma casa para a mãe são os sonhos de vida da atleta.


Antes das baterias, a música faz parte do ritual da surfista: "Eu gosto de escutar muito rap e hip hop e tal para dar aquela instigada, ficar adrenalizada. Logo depois eu escuto sempre um rap para dar uma regulada e eu fico uns cinco minutinhos assim, fecho o olho, faço aquelas respirações profundas para me conectar comigo mesma e entro na água", contou. L7nnon, Filipe Ret e Orochi são nomes certos nas playlists da atleta.


Ítalo Ferreira é a grande inspiração de Júlia. A surfista teve a oportunidade de conhecer o atual campeão mundial ao participar do "Barca do Ítalo", um concurso da Billabong, um dos patrocinadores do atleta, que levou Júlia e mais dois amigos para surfar com Ítalo em Baía Formosa, Rio Grande do Norte, a terra natal do campeão. O encontro foi um dos momentos mais marcantes da vida da surfista.


Júlia e seu ídolo, Ítalo Ferreira. Foto: Reprodução/Instagram

"É um cara que me inspira muito. Inclusive, ano passado, acho que foi por assistir ele todas as vezes nas baterias, acompanhar tudo o que ele fazia, tudo o que saía dele eu parava para ver, as entrevistas que ele dava, sei lá, eu senti uma energia bizarra que me tocou muito e me inspirou muito a conquistar o título. Você vê ele na bateria que nem um louco, para lá e para cá, pegando onda toda hora, eu tentei pegar um pouco disso para mim e deu super certo", contou.


Atualmente a atleta continua sem um patrocínio de bico, o principal no surf, mas conta com o suporte de uma agência, a The One, que é de seu empresário. Na agência, Júlia é a única mulher entre uma equipe que conta com nomes como Alex Ribeiro e Deivid Silva. Além disso conta com um patrocínio de prancha da Shine Surfboards e com o apoio das marcas Janga e Stence.


O pico de surf dos sonhos de Júlia é Macaronis, que fica nas Ilhas Mentawai, Indonésia. Já o pico preferido é pertinho de casa, a Praia de Pitangueiras, que fica no Guarujá. O foco da surfista agora, em tempos de pandemia, é o bicampeonato brasileiro. "Quero aproveitar que eu estou me sentindo bem, eu estou bem fisicamente, as minhas pranchas estão boas, eu estou num momento bom, então eu quero embalar e tentar fazer uma coisa histórica para mim que é ser bicampeã brasileira", disse a atleta.

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