• Raiane Cardoso

Conheça a história de Jacqueline Silva

Local da Barra da Lagoa em Florianópolis, Jacqueline Silva passou mais de 10 anos na elite do surf mundial representando o surf feminino brasileiro. Agora, Jacque está longe das competições mas sempre presente no cenário do surf organizando surf trips e um surf camp em sua casa, e também se dedicando a hobbies como a pescaria e a culinária. Hoje o ManaSurf te conta um pouquinho sobre a história dela.



Jacqueline Schveitzer da Silva logo ficou conhecida como Jacqueline Silva por causa de seu sobrenome alemão de difícil pronúncia. Nascida, criada e moradora por toda vida da Barra da Lagoa, Jacqueline tem uma irmã e mais dois irmãos, sendo um deles seu irmão gêmeo. A história com o surf começou ao lado deles, especialmente ao lado do irmão mais velho. "Eu morava e moro a 100 metros da praia então eu acho que esse foi uns dos motivos que me levou para dentro da água porque eu costumava sempre ir para a praia com meus irmãos depois do colégio", disse Jacqueline.


"Eu passei a ver aquelas pessoas surfarem todos os dias que eu ia praia e aquilo me despertou uma vontade. A gente tinha uma pranchinha de isopor que meu pai tinha comprado só para a gente brincar e eu comecei naquela pranchinha. Eu revezava a pranchinha com meu irmão mais velho, Leandro. E começou assim, como uma brincadeira", conta Jacqueline. Não demorou até a sua brincadeira ir se tornando algo sério. Logo conheceu Bira Schauffert, que foi seu empresário e técnico por mais de 20 anos: "Os nossos caminhos se cruzaram na água um dia e, a partir daí, foi uma alavanca, as coisas começaram a acontecer".


Mesmo sem ter a pretensão, sua carreira no surf foi se moldando. Jacqueline começou a surfar em 1989 e logo começou a participar dos campeonatos de base da Barra da Lagoa. Em 1991 começou a correr o Circuito Brasileiro de Surf Amador, que considera o marco de início da sua vida profissional no esporte. Seis anos depois, em 1997, entrou para o circuito mundial. "Nunca imaginei na minha vida que eu pudesse fazer do surf uma profissão", disse a surfista.


No ano de estreia, Jacqueline foi eleita a "Rookie of the Year", a surfista revelação do ano. Foram 11 anos correndo o World Championship Tour (WCT) e mais de 12 anos correndo o World Qualifying Series (WQS), partipava dos dois circuitos ao mesmo tempo. "Eu passava de seis a oito meses por ano viajando. A Austrália era o lugar que eu passava mais tempo, eu ficava de dois meses e meio a três todo ano, era o lugar que tinha mais eventos. Se tinha campeonato entre essas pernas mais longas de uma semana, dez dias, eu sempre ia e voltava. A minha base era Floripa, era daqui que eu saía e voltava sempre", contou.

Jacqueline e um de seus irmãos. Foto: Arquivo Pessoal

A surfista é bi-campeã no WQS, venceu os circuitos de 2001 e 2007 e foi vice-campeã no circuito de 2000. Foi vice-campeã no WCT em 2002. Em 2006 foi vice-campeã no campeonato da International Surfing Association (ISA) e em 2014 foi campeã sulamericana. Em 2015, Jacqueline encerrou sua carreira no circuito mundial antes do que planejava por falta de patrocínios, que foram encerrados sem a surfista ter uma justificativa.


"Enquanto eu tinha patrocínio tudo fluía porque aí não tinha despesa com as viagens, ia viajar tranquila. A partir do momento que eu perdi ficou bem complicado porque você pensa dez vezes antes de viajar. Tem a sua despesa pessoal e você sabe que o campeonato é um ponto de interrogação, você nunca sabe o que pode acontecer. Você pode chegar lá e ganhar o campeonato, como pode chegar e perder na primeira bateria. Sair daqui até a Austrália e perder na primeira bateria. E aí você gastou dez mil reais para perder de cara. A cabeça já dá uma girada, já é uma outra coisa, sabe. Mas é a competição, a gente está sujeito a isso", disse Jacqueline.


A surfista perdeu seu patrocínio de bico em 2009, mesmo ano que não conseguiu se classificar para o WCT de 2010. Correu o WQS de 2010 para se reclassificar e conseguiu, voltando e correndo seus últimos dois anos de WCT, 2011 e 2012, e nos três anos Jacqueline correu os circuitos bancando suas despesas.


2011 foi um marcante na carreira e na vida da surfista. Tudo começou na Austrália: "Eu cheguei na Austrália para ficar três meses, aí a minha mala não chegou, perdi minha mala com as minhas melhores coisas, nunca apareceu. Já começou assim. Fiquei na casa de uma amiga na Gold Coast, eu tava com um laptop novinho, tava com ele há três meses só. A televisão da minha amiga caiu em cima do meu computador, quebrou toda a tela dele. Corri um campeonato de WQS que também me deu a maior febre, fechou a minha garganta, amigdalite, que eu quase nem competi. O dia que eu competi, competi muito mal. Por último, veio o acidente. Falei: 'Caraca, que ano na Austrália'".


Jacqueline sofreu um acidente de carro na etapa de Bells Beach. Sua bateria era a terceira do dia e a surfista foi mais cedo para a praia para treinar. No caminho, em uma rodovia australiana, seu carro bateu de frente com uma caminhonete. Jacqueline só foi entender o que tinha acontecido depois de passar por uma cirurgia: teve uma fratura exposta no joelho direito, quebrou a patela e teve uma lesão na cartilagem.


"Dirigi menos de 10 minutos até a hora do acidente. Eu até tentei desviar o carro mas foi tão rápido que eu não esperava. Eu só vi que o carro ficou rodopiando na pista. A hora que parou o carro, nossa, eu estava em estado de choque. Logo já vieram pessoas me socorrer, pedi para eles pegarem a minha mochila para eu ligar para o Renato Hickel, presidente da WSL brasileira. Só depois que eu fui saber o que tinha acontecido, quando me levaram para o quarto, que eu olhei a minha perna toda enfaixada, não conseguia mexer a perna, que eu fui saber da gravidade. Ali que me caiu a ficha do que tinha acontecido, que ali tinha acabado o meu ano", lembrou a surfista.


"Foi bem complicado porque eu estava fora de casa, sozinha. Para a minha sorte essa minha amiga, que eu estava na casa dela, foi um anjo, foi a única pessoa que foi todos os dias me visitar no hospital, eu fiquei cinco dias internada e ela foi todos os dias me levar roupa, me levar comida, me levar coisas que eu pedia para ela. A única pessoa além dela que foi me visitar foi a Neridah Falconer, uma australiana que eu corri o circuito mundial com ela, ela já tinha se aposentado. Nenhuma das meninas, cara, ninguém foi me visitar no hospital, ninguém da WSL. Fiquei bem sentida porque eu, ao menos, esperava do presidente que era brasileiro ir me visitar lá no hospital. Foi um episódio que eu fiquei bem triste mesmo", relembrou.


Três semanas depois do acidente a surfista voltou para Florianópolis depois de uma longa viagem e deu início à sua reabilitação. "Até eu entrar no mar de novo foram quatro meses e três semanas reabilitando, fazendo fisioterapia e hidroterapia de segunda à sexta. Eu tinha um prazo para voltar, eu já tinha conseguido a vaga de contusão pela para voltar para o WCT, então eu tinha um prazo, não cheguei a voltar 100% porque não deu tempo. Hoje eu não sinto nada no joelho, eu surfo sem limitação nenhuma, graças a Deus", contou Jacqueline.


Depois de sair do circuito mundial por falta de patrocínio, Jacqueline se dedicou aos campeonatos nacionais, o que não conseguia fazer antes porque a antiga ASP - atual WSL - não permitia que os atletas corressem circuitos nacionais. Em 2015 foi campeã brasileira profissional, em 2016 foi vice e em 2017 terminou em terceiro lugar. Em 2018 ainda participou de três eventos organizados pela Confederação Brasileira de Surf (CBSurf) e assim encerrou a sua carreira. Quando questionada sobre um possível retorno aos campeonatos em 2021, Jacqueline comentou que a falta de eventos voltados para o surf feminino no Brasil a desmotivaram.


"Como a gente estava tendo um campeonato por ano desde quando eu parei o circuito mundial, aquilo acabou me desmotivando porque a competição era o que me motivava. Eu tinha que treinar porque tinha campeonato todo mês ou a cada duas, três semanas. Você se esforçar o ano inteiro para correr um campeonato só é bem desmotivador, foi o que aconteceu comigo", disse.


Desde 2018 aposentada, Jacqueline tem curtido mais o tempo em casa: "Eu comecei a aproveitar e curtir mais o tempo aqui junto com a minha família, coisa que eu não fazia nunca e aí comecei a mudar meu pensamento porque esse momento de transição é bem difícil. Você pensa assim: "O que que eu vou fazer agora depois de ter parado de competir?". Você fica sem chão. O primeiro ano que eu parei de correr o circuito mundial eu fiquei completamente perdida. Não era da maneira que eu esperava porque eu esperava acabar por cansaço mesmo de viajar, de tempo de circuito, anos de carreira. Mas hoje eu estou legal. A gente tem que virar a página né, mas o foco vai ser sempre o surf, com certeza. Isso não vai mudar nunca".


Jacqueline e Tina Vilela. Foto: Reprodução Instagram

Hoje Jacqueline dá aulas de surf e tem dois projetos: o Surf Camp House Jacqueline Silva e o Surftrips Jacque & Tina. No Surf Camp, desde 2017 a surfista recebe outras meninas em sua casa para uma estadia de três ou quatro dias instruindo-as para melhorar a perfomance no surf. "Eu tenho uma casa aqui na Barra da Lagoa que eu uso muito pouco, eu moro sozinha, é uma casa que cabem até dez pessoas. Como eu comecei a ficar mais tempo aqui, eu pensei que fazer alguma coisa, tenho um espaço legal na beira da praia, com a imagem que eu tenho, com a bagagem que eu tenho, precisava fazer alguma coisa até para mim e para as meninas, o surf feminino está em ascenção, está crescendo aí. Preciso assar para a frente tudo o que eu vivi, tudo o que eu aprendi com o surf, sabe. Não posso me fechar com toda essa bagagem", contou ela sobre como surgiu a ideia de fazer o surf camp.


Também em 2017 a surfista começou a fazer surf trips com Tina Vilela, surfista que criou o movimento "Elas Também Dropam". As viagens são para destinos fora do Brasil como Peru e El Salvador. "A Tina tinha vontade de juntar um grupo de meninas e levar para fora do Brasil. A gente começou a amadurecer a ideia e conseguimos vender para uma agência de turismo. Começou em 2017, com a primeira viagem para a Costa Rica só com meninas, agora a gente também faz grupos mistos. Agora estamos com a ideia do surf camp no Brasil e fazer surf trips dentro do Brasil também, começando aqui pelo sul", contou Jacqueline.


Recentemente a surfista foi convidada pra integrar uma chapa que vai concorrer a diretoria da CBSurf, integrando o time como diretora de surf feminino brasileiro. "A gente vive o melhor momento do surf brasileiro, temos aí três campeões mundiais brasileiros, somos hoje referência do surf mundial e não temos nada de campeonato no Brasil, acabou tudo. A gente precisa ser eleito mas vou dar o meu melhor, com certeza, para ver o surf para a gente poder ter mais representantes femininas no circuito mundial", disse.


Além disso, Jacqueline encontrou no mar um novo hobby: a pesca. "Aqui em Santa Catarina a gente tem a pesca da tainha que é cultural já, existe há mais de 50 anos. As praias fecham nessa época, então eu não posso surfar na minha praia durante dois meses e 15 dias, mas aí pode pescar, então o que eu fiz, eu fui pescar (risos). Larguei a prancha e fui pescar. Foi uma fuga para mim, uma terapia e tem sido até agora, porque assim, não tem onda eu vou pescar. E aí como fica frio, água gelada, eu sou friorenta também, eu falei 'Ó, quer saber, eu vou pescar'. E quando eu vou surfar eu já levo a minha tarrafa junto porque se eu ver peixe eu estou com a minha tarrafa. Ou eu surfo e depois dou uma olhadinha, vejo se eu vejo alguma coisa e tem sido muito legal."


Jacqueline também se dedica e é habilidosa em outros esportes desde pequena. Praticava e gostava muito futebol durante a infância e uma professora de até quis que ela participasse de um time de futebol de salão. "Quem sabe eu não seria uma Marta da vida aí hoje (risos)", brincou. O futvôlei e o vôlei são esportes que a surfista também pratica com frequência em sua rotina normal.


A tatuagem de Jacqueline. Foto: Reprodução Instagram

Uma pessoa mais caseira, a surfista conta que é nunca foi muito de sair de casa, mas um pub ao som de um rock das antigas, música eletrônica - os ritmos preferidos da surfista - é algo que enche seus olhos. Agora durante a pandemia, Jacqueline se livrou do medo e decidiu fazer uma tatuagem, assinou a Netflix para ver filmes - comédias românticas são o seu gênero preferido - e também se descobriu na culinária: "Tenho cozinhado para caramba, descobri meu dom na cozinha. Comecei a inventar, fazer lasanha, fazer tortas, bolos". Os planos para quando a vacina chegar e a vida voltar ao normal são de continuar desenvolvendo seus projetos, surfar em Puerto Escondido e nas Maldivas, picos que a surfista ainda não visitou e de aglomerar com quem ama.


"Eu quero me reunir com meus amigos, é a primeira coisa. Foi até bem curioso porque no verão agora a gente aproveitou muito esse grupo. A gente ia para a praia, ficava na praia o dia inteiro juntos e à noite a gente ia para a casa de alguém para fazer alguma coisa juntos também, um jantar, um peixe, um churrasco, qualquer coisa. Foi muito intenso. Sinto muita falta disso, de estar reunida com meus amigos de novo, minha família, meus parentes, primos, tios", disse Jacqueline.


E aí, gostou da história da Jacqueline? Você pode conferir a história da Jasmim Avelino e da Yanca Costa também!

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